quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Apologética (Wycliffe)




O termo é derivado do verbo grego apologeomai, significando “dar uma resposta”, '"responder”, “defender a posição de alguém”, e do substantivo grego apologia. Em seu sentido mais estrito, significa a defesa da fé do cristão individual. Em um sentido mais amplo, é a resposta do cristão a ataques sobre si, sua doutrina e sua fé, e toda a revelação dada nas Escrituras. Em seu sentido total, a apologética é a defesa e a justificação da fé cristã e da revelação dada nas Santas Escrituras contra o ataque dos duvidosos e incrédulos, mais o desenvolvimento de uma apresentação evangélica positiva dos fatos mostrados na Bíblia, a racionalidade da revelação de Deus ao homem nas Escrituras, e a sua ampla suficiência para atender as necessidades espirituais completas do homem. A apologética é, então, não apenas um exercício negativo e defensivo, mas também positivo e ofensivo. Não é apenas para ser usada na defesa do Evangelho, mas também em sua propagação, O estudo da apologética. Este pode ser dividido em três períodos como encontrado em três eras da história da igreja.

1. Apologética do Novo Testamento.

O verbo grego apologeomai é usado para expressar a idéia de autojustificação e autodesculpa (Rm 2.15; 2 Co 12,19) e também o substantivo apologia (2 Co 7.11); mas particularmente no sentido de responder aos ataques sobre a fé e a convicção de alguém, e de oferecer uma defesa. Atos 7 é frequentemente chamado de apologia de Estêvão quando ele respondeu ao Sinédrio judeu às acusações de falso testemunho (At 6.11-15). Paulo fala em ser colocado para “a defesa do evangelho” (Fp 1.6,17), Ele fez duas “apologias” para a sua posição, a primeira diante de Festo (At 24.10; 25.8; cf. v. 16), e a segunda diante de Agripa (At 26.2). Quando apelou para o privilégio de fazer o mesmo diante de César (At 25.8-16), seu pedido foi finalmente concedido. Cada uma destas apologias contém tanto uma defesa negativa como um elemento evangelístico positivo. Por exemplo, Paulo usou sua defesa como uma introdução ao Evangelho de uma maneira tão eficaz, que Félix ficou amedrontado (At 24.25), enquanto Agripa exclamou: “Por pouco me queres persuadir a que me faça cristão!” (At 26.28). Mesmo considerando uma outra interpretação deste último versículo. “Você tão facilmente me persuadiria a ser um cristão?”, o Evangelho positivo na apologia de Paulo ainda pode ser claramente visto no efeito produzido em Agripa.

2. Apologética na igreja primitiva e medieval.

Justino Mártir escreveu sua obra Dialogue With Trypho (em aprox. 150 d.C.), Orígenes respondeu a muitos argumentos anti-cristãos em sua obra Kata Kelsou (Contra Celsus) (em aprox. 235), e Atanásio publicou sua obra Contra Gentes (em aprox. 315), Mas a apologia mais importante de todas foi City of God de Agostinho (426 d.C.). Até a igreja ser reconhecida por Constantino o Grande, ela era acusada de canibalismo e promiscuidade sexual por ter de se reunir em segredo em lugares como as catacumbas. Porém, após ser reconhecida imperialmente, ela teve que enfrentar acusações de mundanismo. Foi para explicar este último que Agostinho escreveu e tomou como sua tese a “Cidade de Deus” em contraste com a cidade do mundo. Na Idade Média a apologética lutou com as questões da fé - com relação a fatos tais como a Trindade e a encarnação, conhecíveis apenas pela fé - versus a razão, e os fatos da ciência e do mundo material que é receptivo á razão. Aquinas fez uma síntese parcial que se tornou a posição oficial do romanismo. Pela razão o homem pode argumentar quanto à existência de Deus e até conhecer a Deus; mas a Trindade e a encarnação são inacessíveis à razão, dadas pela revelação e recebidas somente pela fé.

3. Apologética moderna.

Para o propósito de estudo e de uma análise útil, é valioso considerar a apologética católica romana e a protestante.

(a) A apologética católica romana é caracterizada pelo fato de atribuir tanto a origem quanto a (infalível) interpretação das Escrituras à igreja; e pelo fato de ensinar que a teologia racional é possível e existe tanto
quanto a teologia revelada, pelo uso da razão humana o homem pode chegar ao conhecimento da pessoa e da existência de Deus e até à salvação. A razão pela qual o homem falha em chegar à verdade pela teologia racional não é a sua condição decaída, mas sim a indolência daqueles qne sâo mentalmente capacitados a atingi-la por este meio, e a inabilidade racional dos demais. Por causa desta preguiça por parte de alguns e da inabilidade dos outros, Deus escolheu, em sua graça, dar a revelação. A igreja católica romana desenvolveu uma apologética própria muito completa. Começando em 1908, o papa indicou comissões contínuas para investigar completamente e emitir relatórios sobre o problema Deutero- Isaías, a teoria J.E.D.P., form-Geschiehte etc. Habilidosos escritores da igreja produziram livros eficazes sobre a apologética como The Faith of Our Fathers (do cardeal James Gibbons), uma defesa da igreja católica romana; e Katkolieke Geloofsverdediging (do cardeal Brocardus Meijer), uma obra muito completa e habilidosa sobre a apologética em geral, em holandês. Como resultado das comissões eruditas de Roma e de uma obra tão completa em apologética como a de Meijer, os católicos romanos estão apresentando uma defesa convincente de sua fé, que está ganhando muitos da ala modernista, onde não foi expressa nenhuma defesa semelhante da fé cristã.

(b) Apologética protestante.

Há um forte elemento de apologética presente na obra Institutes, de Calvino, onde ela é apresentada em combinação com a teologia. As obras mais famosas e eficientes de apologética propriamente dita, no entanto, antes da nossa época, são Analogy of Religion, de Joseph Butler (1736) e Apologetics or Christianity Defensively Stated - de A, B. Bruee (1892). Esta última foi a obra ortodoxa padrão em inglês durante muitos anos. Grande parte de seu lugar foi tomado, ultimamente, pelos escritos de Edward John Carnell. An Intro Introduction to Chrístian Apologetics e A Phílosophy ofthe Chrístian Religion, e de Bemard Ramm, Protestant Chrístian Evidences, Types of Apologetic Systems, e The Chrístian View of Science and Scripture. Enquanto Carnell e Ramm lideraram a causa evangélica em apologética com um trabalho admirável em muitas áreas deste campo, ambos tiveram dificuldades em certos pontos, particularmente no que diz respeito à absoluta infalibilidade da Bíblia na escrita original, a ponto de outros terem que vir em seu auxílio neste ponto.

O valor e o lugar da apologética.

Considerando sua extensão, o AT faz relativamente pouco uso da apologética. Em Jó 32-37, no entanto, está uma repreensão de Eliú às falsas ou inadequadas opiniões de Jó e de seus três amigos a respeito de Deus e da teodicéia que é a doutrina da justiça divina). O próprio Senhor responde a Jó para convencê-lo  de sua soberania, e, ao mesmo tempo, da incapacidade de Jó (Jó 38-41). Vários Salmos recorrem à atividade de Deus, ao seu cuidado providencial (por exemplo, Salmos 104 e 107) e histórico (Salmos 105 e 106), para evocar o louvor e a confiança, e mostrar a loucura da idolatria (Salmo 115). Dentre os profetas, especialmente Isaías proclamou a apologia de Deus contra as divindades pagãs, desafiando os gentios adoradores de ídolos a provarem a realidade e o poder de seus deuses por meio do teste das profecias e seus respectivos cumprimentos (Is 41.21-29; 43.813; 44.6-20; 45.18-25; 46.1-11; 48.1-6), O NT dá à apologética um lugar muito mais importante. Os patriarcas da igreja primitiva eram constantemente chamados a defender a sua fé contra filósofos pagãos, agnósticos e hereges. Na apologética, somos chamados a mostrar a racionalidade da fé cristã e sua revelação como dada na Bíblia. Isto é realizado por meio de comparação da ciência com as Escrituras, uma consideração da arqueologia com a história e fatos bíblicos, um apelo ao cumprimento de profecias preditas, um estudo das provas da inspiração e infalibilidade da Bíblia, e uma aplicação da razão à questão da existência e da natureza de Deus. Os apologistas protestantes não ensinam que uma teologia completamente natural seja possível meramente pela aplicação da razão humana na formulação de cinco ou mais provas teísticas (provas da existência necessária e real de Deus). Antes, tão longe quanto possa ir a razão humana - e isto inclui a formulação de argumentos teísticos, ou seja, o cosmológico (a existência do mundo), ontológico (a existência de uma ideia de Deus), o teológico (a existência e a manifestação da criação e propósito no mundo e no homem) - é apenas racional concluir que uma Pessoa racional, intencional e moral exista e seja a causa tanto do universo quanto do homem. A Bíblia declara por revelação que tal é o caso e, em Romanos 1.18ss, aprendemos que Deus considera o homem como o responsável por chegar à conclusão de que Ele existe. Portanto, o apologista protestante nem se baseia completamente na razão - como os católicos romanos com a sua teologia natural, nem rejeita completamente o lugar da razão - como alguns aos protestantes extremamente ortodoxos (por exemplo, Abraham Kuyper em sua obra Principles of Sacred Theology e Cornelius Van Til em sua obra The Defense of the Faith, que enfatizam a impotência da mente humana em pecado e a necessidade do poder renovador do Espírito Santo), Ao invés disso, reconhecendo a fragilidade da razão humana desde a queda do homem, ele dá uma função comprobatória, subsidiária à revelação. Em outras palavras, as leis da lógica, os fatos da vida e do cosmos, e as revelações proposicionais encontradas na Bíblia devem receber seu lugar  próprio na obtenção da verdade final e na formulação do nosso sistema apologético.

Métodos apologéticos.

Torna-se muito importante desenvolver um método apologético completo e satisfatório. Isto é de tudo o mais necessário, uma vez que o cristão deve se defender não apenas contra as teorias passageiras da ciência, mas também contra os erros da filosofia mundana. Nenhuma defesa bem-sucedida é possível até que alguém seja capaz não apenas de enxergar o erro ou os erros contra os quais discute, mas também compreender seus fundamentos filosóficos. Portanto, a nossa causa é grandemente fortalecida quando insistimos no fato de que temos uma filosofia cristã de existência, ou seja, uma explicação para (a) a origem da realidade, consistindo do mundo e do homem; (b) a realidade em si, consistindo de objetos (res extensa), ideias ou pensamentos res cogitata) - duas das quais claramente definimos e distinguimos; (c) o destino do mundo e do homem. Todos os filósofos são chamados a dar suas próprias explicações sobre estas três questões. Uma defesa praticável e completa do ponto de vista cristão sobre qualquer opinião procurada, portanto, inclui o seguinte: (1 ) uma descrição justa e completa da opinião de um adversário; (2) uma apresentação do valor da opinião que alguém tenha; (3) uma consideração de sua base filosófica e uma apresentação clara de suas falácias, com bases tanto lógicas quanto filosóficas; (4) um exame da opinião à luz das confissões e credos da igreja; (5) um exame para ver que vantagens teológicas ela pode oferecer e que problemas teológicos ela pode levantar; (6) uma apresentação da opinião bíblica sobre o assunto em discussão e a prova de sua racionalidade, e uma descrição clara de como a opinião bíblica foge dos problemas filosóficos e teológicos levantados por uma visão errada. Além das obras principais em apologética já mencionadas, houve muitos livros muito valiosos  sobre aspectos específicos da fé, tais como o nascimento virginal, a ressurreição, milagres, a infalibilidade das Escrituras etc. Estes podem ser prontamente encontrados em extensas bibliografias anexadas por Carnell e Ramm aos livros mencionados acima.

O objetivo da apologética.

Este inclui: (1) fazer contato com aqueles que tenham uma opinião errada ou perigosa, ou que ataquem a revelação e fé cristãs; (2) encontrar uma área na qual o problema possa ser discutido imparcialmente, e provar a fraqueza da opinião em questão primeiro em alguma área neutra comum a todos, tais como a filosofia ou a lógica; (3) mostrar os problemas teológicos levantados; (4) expor as convicções da igreja em suas confissões e credos, e interpretar o que as Escrituras ensinam, enquanto se apresenta a racionalidade de tudo isso, A base comum buscada para o diálogo com o adversário, não tem de impor qualquer transigência,  tal como tentado por alguma apologética recente, nem forçar as Escrituras sobre o duvidoso ou o agnóstico. Considerar cada aspecto de um problema antes de entrar no mérito das próprias Escrituras, abre a mente do adversário para considerar a própria posição e respostas de Deus.

Bibliografia:
A. B. Bruce, Apologetics, Edinburgh. T. & T. Clark, 1892.
E. J.Carnell, An Introduction to Chrístian Apologetics, Grand Rapids. Eerdmans,1952;
A Philosophy of the Chrístian Religion, Grand Rapids. Eerdmans, 1952.
Robert Flint, Agnosticism, New York, Scribner’s, 1903;
Anti-Theistic Theories, Edinburgh. Blackwood. 1879.
BrocardusMeijer, Katholieke Geloofsverdediging, Roermond. Romen & Zonen, 1946.
Bernard Ramm, Protestant Chrístian Evidences, Chicago. Moody Press, 1953;
Types of Apologetic Systems, Wheaton, III.. VanKampen Press, 1953;
The Chrístian View of Science and Scripture, Grand Rapids. Eerdmans, 1954.

Dicionário Bíblico Wycliffe, CPAD, págs. 158-160

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